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Saturday, October 23, 2010

Difícil entrar em ação no dia-a-dia


Por: Mateus Cavarzan

Como eu matei um garoto

A chuva caía freneticamente lá fora. Era gostoso ouvir aquele som; a chuva batia na janela emitindo aqueles sons abafados, irreproduzíveis, até nostálgicos, porém sobretudo aconchegantes que sempre me deixam com vontade de sentar na frente da lareira tomando um bom chocolate quente. Fazia muito frio naquele domingo. Olhei para a janela enquanto subia as escadas rolantes e fiquei a admirar a perfeita harmonia da chuva que molhava a praça em frente da livraria que estava. Enfim cheguei à seção que buscava: literatura estrangeira. Lá estava eu como uma criança em um parque de diversão; passava meus finos, longos dedos nos inúmeros livros que me rodeavam, os sentia, os tocava, os cheirava... inalava aquele odor fresco de tinta e papel nas minhas mãos. Minha expressão um tanto eufórica chocava as pessoas ao meu redor, porém aquilo de nada me valia pois estava eu focado naquele momento, naquele meu mundinho literário que acabara de abrir seus portões dourados à mim. Meus olhos passavam de Lewis para Orwell, de Orwell para Twain, de Twain para Kundera e voltavam de novo à Austen, enquanto um pilha de livros se acumulava ao meu lado. Meus dedos ansiavam por mais e mais, famintos como lobos! Sentei no chão e cruzei as pernas. O momento havia chegado e eu o sabia; tinha que escolher qual levar e simplesmente não havia nenhum critério senão um: o preço. Desde de criança sempre me fascinou aquelas máquinas onde se lê o código de barras de um livro e o preço aparece na tela. Até aquele barulhinho me deixa mais agitado, com vontade de comprar mais. Depois de fazer uma rápida consulta dos preços, fiquei em dúvida entre dois; olhava para um e depois para o outro, regressava um à estante mas o pegava novamente, olhava a capa e as orelhas e não conseguia escolher. No final das contas acabei levando os dois e saí triunfante da seção de livros em direção ao caixa para pagar. De novo veio aquele beep e apareceu na tela o total a pagar: R$75, 90. Abri minha carteira e tirei duas notas de cinqüenta como se fosse a coisa mais normal do mundo. Coloquei os livros em uma sacola de plástico e caminhei em direção à porta sorrindo e orelha à orelha.
Ainda chovia quando saí da livraria em direção ao estacionamento e foi então que o vi. Aqueles olhos fitaram-me de uma maneira assustadora; não sabia o que fazer ou como agir. Lá estava aquele menino com pé descalço sentado no banco olhando para mim. Suas roupas estavam encardidas, rasgadas e molhadas e seu olhar era inexpressivo. Seus olhos diziam, gritavam algo. Medo, fome, miséria e tristeza tudo ao mesmo tempo. Minha reação foi instantânea; virei meu rosto para o outro lado e desviei meu olhar. Porém sentia, mesmo de costas, aqueles olhos em mim; rezava para que a fila andasse mais rápido e pudesse pagar o estacionamento o mais rápido possível. Fiquei imaginando como ele havia chegado ali. Teria entrado para abrigar-se da chuva? Ou teria dormido ali mesmo naquele banco gelado e duro durante a noite? Sua mãe teria lhe obrigado a estar ali para mendigar por alguns trocados? Que fim teria este dinheiro? Drogas? Armas? Sexo? Cocei minha garganta e comecei a bater meu pé impacientemente no chão – um hábito que tenho quando estou nervoso e impaciente – e tentei pensar nos livros que estava prestes a começar a ler. Mas, não pude continuar por muito mais. Me sentia mal, infeliz e irritado. Irritado? Irritado com quem? Enfiei minha mão na sacola e senti com a palma da minha mão a capa dura dos livros que comprara – movimentos todos acompanhados por aquele par de olhos – e abri a sacola para poder ver os livros sem tirá-los da sacola. Será que aquele menino tinha alguma vez na sua vida freqüentado uma escola? Ter pelo menos tocado em um livro de capa dura que jamais pertencera a alguém, que tivesse até cheiro de novo? Ou pais que lhe dariam dinheiro para comprar o que quisesse? Só pude pensar em uma única palavra, uma que descrevia precisamente como estava me sentindo, uma que também descrevesse minhas ações e meu comportamento, uma que provocava dor ao pronunciá-la: hipocrisia.
Quando falamos em pobreza sempre – coisa que já se tornou um vício para mim - penso nas crianças passando fome na África. É sempre a mesma imagem. Uma criança negra com um corpo deformado. Pode-se ver até sua fraca estrutura óssea através de sua pele escura e muitas vezes possuem uma barriga um tanto arredondada causada pela ingestão de comida e água contaminadas cheias de bactérias e protozoários. Mas é necessário ir tão longe, ir para outro continente para encontrar miséria? Não. Há miséria ao redor de mim. Não há um dia sequer que não passo por uma avenida e não vejo mendigos na sarjeta. Não há um único dia que em meu trajeto para escola não vejo uma favela. Então por que penso em um lugar distante enquanto há a presença da pobreza diariamente na minha vida? Somos, querendo ou não, todos hipócritas. Falamos, combatemos, lutamos contra a pobreza, porém somente no âmbito ideológico. Temos várias oportunidades todos os dias de ajudar ao próximo. Chegamos a atuar? Bem, isso já é outra conversa. Há coisas que compro por mero luxo. Troco de Ipod quase todo ano, toda semana compro um livro novo, mal saiu um jogo para PS3 e já o tenha na minha estante e a lista se prolonga e prolonga. Será que esqueço que com menos de 10 dólares mensais posso garantir que uma criança tenha uma adequada alimentação e acesso à saúde na África quando compro um novo livro? Que a cada 4 segundos uma criança morre na África? Quantas crianças já matei então apenas comprando livros? O pensamento me assombra, me dá calafrios. Penso nos inúmeros cadáveres que assombram a minha estante; no sangue em minhas mãos e caio em uma profunda melancolia.
Finalmente chegou a minha vez e paguei rapidamente o estacionamento. Entrei no carro e fechei a porta. Naquele momento, ali dentro do carro, ali olhando para os pingos de chuva que batiam na janela soube o que tinha feito, soube que no momento em que tranquei a porta, no momento em que virei meu rosto, tinha feito algo terrível. Tinha matado um garoto.

3 comments:

  1. Concordo totalmente com cada palavra que escreveste. A maioria de nós é assim - de muitas palavras mas de raríssimos atos.
    Temos essa tendência de pensar na pobreza que está distante, pois é mais fácil negá-la.

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  2. adorei ! o jeito como vc escreve demostra como vc é ! mesmo ! sei que tudo isso é verdade mas nunca tinha visto escrito dessa forma, desse jeito tao sincero e realista que dificilmente um dia conseguiria escrever. Meus sinceros e honrrosos Parabens. Your #1 fan

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  3. Mateus, adorei o texto, nao fiquei impressionada só com a escrita, mas principalmente.. com conteúdo. Ator, escritor.. o que mais? Parabéns pelo texto! ;D

    beijos, cami

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